Existe um pensamento comum entre artistas que fazem música em Belém, especialmente aqueles que estão começando, de uma escassez de palcos e oportunidades de apresentação na cidade. Entre 2024 e 2025, porém, começaram a surgir vislumbres de uma nova cena, seja por pequenas produtoras dando seus primeiros passos, como é o caso da Zoog; seja por novos selos musicais surgindo e organizando eventos, como é o caso do Perau e Caqui; ou por uma reunião dos próprios artistas em uma vontade coletiva de se entender como uma classe de trabalho que precisa de espaço para fazer música, como é o caso da Baderna.
A Baderna Coletiva é uma produtora formada por um grupo de artistas que, desde abril, organiza pequenos eventos com o objetivo de abrir espaço tanto para os integrantes do coletivo quanto para novas bandas que estão surgindo em Belém. Idealizado por Raflor Moraes e Felipe Gama, o projeto nasceu do descontentamento de ambos com a falta de oportunidades para suas bandas, Mangífera e A Fera. Posteriormente, Leticia Miziara e João Pedro Sanjad passaram a integrar o coletivo, fortalecendo a produção e ampliando o alcance das próximas edições.

Nas minhas andanças pela cidade, minha primeira experiência com a Baderna aconteceu em julho, no Núcleo Ná Figueredo, em uma noite de apresentações da Mangífera e do Les Rita Pavone. Fui pro evento motivado a assistir a performance do novo disco dos Les Rita, “El Baile Rock“, mas cheguei mais cedo, como costumo fazer, para ver a Mangífera.
Tanto o palco da Ná quanto o figurino dos integrantes remetiam a um clima cigano tropicalista da música brasileira dos anos 70, algo que combinava muito com a sonoridade da banda. A fusão da voz grave da Raflor com as guitarras psicodélicas criava uma atmosfera quase mística, parecia que eu tava dentro de uma carta de Tarot.
Já o show do Les Rita Pavone trouxe variações da música latina, misturando cumbia com rock psicodélico, uma combinação que dialogou perfeitamente com o cenário. Em um dos momentos mais marcantes, Raflor subiu ao palco e, junto da banda, apresentou um belíssimo cover de Erasmo Carlos.


O segundo evento da Baderna que presenciei aconteceu em setembro, com apresentações de A Fera, de Anthony Epifanio (guitarrista da banda O Cinza, em formato solo) e de Sophia Chablau, que se apresentou em voz e guitarra. A Fera, duo formado por Raflor e Felipe Gama, apresentou parte do repertório solo de Felipe, com participação de Anthony em determinado momento. Esse momento em que os artistas dividem o palco faz parte da proposta central do coletivo: garantir que, independentemente da hora em que o público chegue ou saia, sempre consiga ver um pouco de todas as apresentações do dia. A noite encerrou com uma performance intimista de Sophia Chablau.
Badernaço 1ª Edição e os camaleônicos de Salvador
Em algum determinado momento, era de se esperar que a produtora se movimentasse na organização de um festival reunindo os artistas envolvidos com o coletivo. E isso aconteceu antes mesmo de completar um ano de atuação, com o nascimento do Badernaço, festival independente que terá sua primeira edição na sexta-feira, 28/11, no Palafita.

O evento traz, pela primeira vez em Belém, a banda baiana Tangolo Mangos, formada em 2017 e conhecida por sua sonoridade que remete à psicodelia nordestina setentista (que falamos com mais detalhes AQUI). O line-up também conta com O Cinza, uma das grandes bandas da nova geração alternativa de Belém, em atividade desde 2016, que mistura MPB com rock alternativo; Les Rita Pavone, que mescla cumbia com rock e lançou neste ano o excelente “El Baile Rock”, incluído na lista da APCA dos 50 melhores álbuns do primeiro semestre; Mangífera e Felipe Gama, que apresentam suas vertentes dentro desse neo-tropicalismo cigano.
Abrindo a noite, essa pessoa que vos fala, também conhecida como Pedromott, vai abrir os trabalhos com um set de brasilidade indie pra aquecer o público e inserir todos nessa baderna.
Serviço
BADERNAÇO 1ª EDIÇÃO
Data: 28/11/25
Horário: a partir das 20hrs;
Local: Bar e restaurante Palafita – R. Siqueira Mendes, 264, Cidade Velha, Belém;
Ingressos: R$ 35, disponíveis via sympla.

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