Depois de um mês de atraso, essa semana finalmente consegui ouvir “Por Mais Uma Semana”, disco de estreia da Verene. O play veio quase como um reflexo automático em uma segunda-feira, assim que botei o pé na academia. Aquele momento diário e horripilante para mim é o exato instante em que a música costuma tornar a prática um pouco mais suportável.
O meu top dois de trilha sonora de academia geralmente passa por Maruja e Turnstile, mas agora tenho certeza que a Verene vai se juntar a essa dupla. Isso porque, em algum momento, contagiada pela sonoridade, “Por Mais Uma Semana” me deu gás pra terminar meus exercícios e vontade de abrir uma cerveja às 8h da manhã de uma segunda-feira.
Nos 40 minutos de duração, a energia do disco me trouxe uma felicidade imediata e, ao mesmo tempo, uma curiosidade. Como eu queria dançar mesmo ouvindo letras tão melancólicas e vulneráveis? A resposta foi simples e respondida pela própria banda.
“Desde o início queríamos criar um disco que fosse honesto com o que sentimos, mas que também desse vontade de viver. A melancolia sempre foi uma parte muito presente nas nossas composições, mas não queríamos que ela soasse como paralisia. Queríamos transformar o peso em movimento”, disse o grupo.
A escolha de fazer um projeto mais elétrico foi consciente e veio do entendimento de que a dança é um tipo de resistência, o famoso seguir mesmo quando o corpo quer parar.
“Por Mais Uma Semana é sobre isso: continuar. Mesmo cansado, mesmo confuso, mesmo sem saber o que vem depois. É sobre encontrar alegria dentro do caos, ritmo dentro do colapso e beleza no ato de permanecer” – Verene.
Processo coletivo

O trabalho da Verene nasceu da soma de cinco cabeças criativas: Berg Viana (bateria), Dionísio Fares (baixo), Felipe Palha (guitarra e synths), Gabriel Flexa (guitarra e synths) e Giovanni Zeit (vocais). Cada faixa é um pequeno exercício de sobrevivência emocional, lapidado entre ensaios, madrugadas de gravação e conversas que atravessaram um ano e meio de criação coletiva.
Durante 2024, as composições surgiram de modos diferentes. Faixas como “Alto-Mar” e “Casa” nasceram das ideias iniciais de Felipe Palha e se modificaram com a contribuição do grupo. Já “Líquido” brotou de um riff (também de Felipe) que se transformou com o toque melódico de Gabriel Flexa, enquanto “Mairi” talvez seja a criação mais complexa, surgida após uma viagem de Giovanni Zeit para Algodoal.
“Lá, olhando pro céu cheio de estrelas, ele (Giovanni) trouxe essa reflexão sobre a beleza do mundo, o apocalipse e o fim das coisas. Criamos um cenário pra faixa: o planeta explode, o único sobrevivente é lançado no espaço e encontra um ser alienígena que questiona o motivo de tudo. É uma das nossas músicas mais densas e cheias de camadas. Nessa, Gio e Berg bateram muita cabeça pra criar uma música revoluta, mas ainda poética”, explicam eles sobre a idealização.
Gravado no Pupuña Studio, do glorioso Félix Robatto, o álbum foi criado com certa liberdade. Antes de entrar no estúdio, as faixas já existiam como demos produzidas nos home studios de Giovanni e Gabe, o que permitiu que o grupo chegasse pronto para experimentar com camadas, timbres e texturas.
“A experiência dele foi fundamental para acalmar algumas das nossas ansiedades e apegos ao perfeccionismo ou a processos que claramente não funcionavam. Usamos os amplificadores, gravador de rolo, um Space Echo e praticamente todas as guitarras dele nas gravações, além das nossas […] Trocar com pessoas que fazem isso há décadas é sempre importante pra gente que tá começando, assim a gente entende caminhos possíveis, aprende com a experiência do outro e até evita algumas frustrações de certa forma. Tudo isso somou bastante pro disco como ele é”, comentam sobre trabalhar com Félix, que também assumiu a percussão do projeto.
Referências e resistência
Séries como “Ruptura” e “Atlanta”, e filmes como “Terra Estrangeira”, que inclusive um dos diálogos aparece na faixa “Indeciso”, foram os responsáveis por expandir a criatividade do quinteto durante a criação.
As artes visuais também tiveram um papel essencial nessa caminhada. Obras como “Ferida do Ferro Sujo”, “Corpos Vulneráveis Em Tempos de Crise”, “Belém é Mairi” e poemas de Márcia Kambeba foram pontos para a Verene também falar sobre o colonialismo cultural e o significado de fazer arte e música na Amazônia.
“Principalmente agora, dentro do contexto da COP 30, quando os holofotes se voltam para cá e tudo parece se acelerar, como se tentassem vender a Amazônia ao mundo. Essa é a Belém que habitamos, uma cidade-porta de entrada para a exploração da Amazônia e de sua gente, propusemos um grito a partir dela”.
E no palco do Núcleo Na Figueiredo, a banda compõe a última edição das Zoog Gigs de 2025, projeto que aposta na cena local alternativa de Belém. O show acontece neste sábado, 18 de outubro, a partir das 20h, junto com os lendários da Turbo. É lá que o quinteto vai fazer todos os ratos dançarem, chorarem, sorrirem e gritarem por mais uma semana.
INGRESSOS ZOOG GIGS 03 – TURBO + VERENE
Data: 18/10/2025 (Sábado)
Horário: 20h
Local: Na Figueredo – Av. Gentil Bittencourt, 449 – Belém/PA
Fotos: divulgação

Deixe um comentário