Eram 10h de uma quinta-feira quando meu celular vibrou com a seguinte mensagem: “Saiu o álbum da Lento e tá a coisa mais linda, vou chorar”. Na mesma hora, respondi quase sem pensar: “Vou ouvir” e abri o Spotify.
Naquele momento, até dei play, mas fui engolida pelos roteiros, pelos textos e pelas urgências do dia. Ter a experiência de ouvir um álbum pela metade, ou com a cabeça em outro lugar, para mim é quase um pecado. Pausei e, por algumas horas, esqueci de ouvir música.
No fim do dia, quando finalmente cheguei em casa já com a mente atordoada do trabalho, lembrei do lançamento. Dei play pela segunda vez naquela quinta-feira e, por 34 minutos, esqueci completamente do meu esgotamento emocional. A sonoridade da Lento, Distante me levou para outro espaço.

Não havia mais barulho na cabeça, nem as buzinas incessantes de uma das avenidas mais movimentadas de Belém. Só restava eu e o álbum “Tecendo Ficções“. Os arranjos, as composições melancólicas e a voz suave da Sandy Iketani, que assina a maioria das faixas, me abraçaram e me confortaram.
O shoegaze é conhecido por vocais delicados e distantes, quase escondidos por trás da massa instrumental. Nesse projeto, não é diferente. A voz da Sandy surge como um alívio, com letras que transmitem um estado reflexivo, como na faixa que abre o álbum, “Só Sou Solidão“, onde se expressa uma solitude e um deslocamento existencial do mundo.
Projeto solo virou quinteto
A Lento, Distante foi criada em 2023 como um projeto solo do Henri Monteiro (guitarra e vocal). Sandy entrou como uma participação na música “Planos”, lançada em 2024, e a partir daí uma nova leva de músicas começou a sair dessa conexão. Logo depois, Vinícius Lobato (guitarra), Lucas Parijós (baixo) e André Menino (bateria) completaram o quinteto.
Após esse processo de formação e criação, no dia 4 de setembro, a banda estreou com seu primeiro álbum, produzido integralmente em casa, sem auxílio de estúdio ou outros profissionais. Isso me lembra muito uma frase que ouvi em alguma música, que fala: “Se não existe cena, faça a sua cena. Faça sua banda, faça seu álbum”. E a Lento, Distante fez exatamente isso.
“A ideia de gravar e produzir em casa nasceu muito da vontade de ter liberdade total no processo, sem pressa e sem pressão externa. Claro que pensamos em como seria gravar em estúdio, mas além de não termos condições financeiras para isso, a sonoridade de Tecendo Ficções no momento faria mais sentido se viesse desse lugar mais próximo da gente”
– Sandy Iketani
Segundo a banda, um dos maiores desafios nessa trajetória de dois anos foi lidar com a falta de estrutura ideal, como o isolamento acústico. “Tivemos que escolher horas específicas para gravar com o mínimo de interferência de barulhos externos. Muitos takes foram desperdiçados por causa de motos ou carros passando, e em alguns momentos também enfrentamos problemas técnicos. Apesar disso, tentamos usar alguns desses ruídos a nosso favor, transformando as limitações em parte da estética do som”, explica o grupo.
Henri, idealizador e autor de algumas letras, ficou responsável pela mixagem e masterização das nove músicas, uma jornada que levou cerca de dois meses. As influências para o álbum vêm das mais variadas linguagens artísticas, de Fernando Pessoa a Anne Carson, passando por cineastas como Tarkovsky e Wong Kar-Wai.
“Acreditamos que a sonoridade de Tecendo Ficções vem da mistura e combinação de vários gêneros e formas de arte. Em “Quase-Lembranças” fomos bastante influenciados pelo Midwest Emo, “Quando Tudo Me Lembra Você” já tem uma pegada post-punk e, claro, o shoegaze e dream pop aparecem em faixas como “Saudades” e “Celine”. A maioria das letras foram influenciadas por filmes. Por exemplo, Renascer foi inspirada em Nostalgia do Andrei Tarkovsky, Trevo foi inspirada em Amor à Flor da Pele de Wong Kar-Wai e Sans Soleil do Chris Marker influenciou várias outras. O álbum também foi muito inspirado por literatura, como Fernando Pessoa, e Eros doceamargo da Anne Carson, que é de onde veio o nome do álbum. As músicas são o resultado da mistura de todas essas referências com as nossas próprias vivências”, completam.
No fim, Tecendo Ficções se revela não apenas como um trabalho autoral e independente, mas uma declaração de amor ao fazer artístico em sua forma mais crua e livre. É um álbum que traduz fragilidade, melancolia e intensidade, e que ao mesmo tempo insere a Lento, Distante como uma das apostas mais interessantes da cena shoegaze atual, não só paraense, mas sim nacional.
A banda faz o show de lançamento do projeto no sábado, 13 de setembro, às 20h, na primeira Zoog Gigs do ano. Os ingressos podem ser comprados aqui.
Foto: Cecília dos Anjos

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